Eis que num sábado de manhã, eu lidando com a vontade de ficar na cama e a necessidade de começar o dia, toca o telefone.
Ele queria levar o neto a um show de rock.
Não achamos apropriado uma criança ir a shows de rock, mesmo sendo matinê.
Mas nem entrei no mérito da coisa, uma vez que o menino estava de castigo, o que já havia sido avisado dois dias antes. Ainda assim, houve insistência. Outro não. E então, algo impensável aconteceu: ele gritou comigo. Gritava loucamente, ameaçando que eu estaria encrencada se não o deixasse levar o menino consigo. Me senti voltando muitos anos no tempo, e não gostei disso.
Não sou mais criança, não preciso que ninguém grite comigo.
Mereço respeito. Sou casada, tenho um filho, e como qualquer mãe consciente, tenho responsabilidades.
Me vi numa situação surreal: aquele que me criou, dando um ataque de birra e gritando comigo ao telefone, porque eu não liberava seu neto do castigo para ir a um show de rock.
Eu? Não gritei, mantive o tom de voz baixo. Tentei argumentar, em vão.
Mas fiquei assustada, coração batendo forte no peito. É ele mesmo ao telefone?
Ele foi tirado do telefone, e minha irmã, numa voz suave, tentou apaziguar as coisas.
Minha mãe veio falar comigo. Achei que seria uma bálsamo no meio da tempestade, mas a mesma só aumentou. Entre cobranças de visitas (tínhamos nos visto na semana anterior, num almoço em minha casa) e um convite de almoço recusado em virtude de um compromisso, fui chamada de ausente.
Valeu aí, por acabarem com o meu dia.
Mas assim é a vida. Daqui a pouco minha tristeza passa.
Mas eu não vou esquecer.
23/10/2017
segunda-feira, 23 de outubro de 2017
Ausência
ausente
adjetivo e substantivo de dois gêneros
- adjetivo de dois gêneros - que não se envolve, que não tem parte ativa em um relacionamento, em um grupo etc.; distante.
- Ela me chamou de ausente.
- Logo eu, que estou sempre à disposição, que ouço, que dou apoio, que choro junto.
- Logo ela, que não sai comigo, nunca aceita um convite para sair de casa e espairecer dos problemas.
- Logo eu, que sempre tento ajeitar as coisas para que os dois gênios difíceis que lá habitam se entendam.
- Logo ela, intransigente que só, que não gosta de fulano, beltrano e ciclano, e por isso, deixa de ir a reuniões deliciosas.
- Isso porque não vou à casa dela sem convite.
- Porque se apareço sem convite, ouço que devo avisar.
- Porque da última vez que lá estive sem convite, fui constrangida, porque não tinha levado um frango assado para ajudar na refeição. Eu, que cresci lá, vivi boa parte da minha vida, ouvindo esse tipo de coisa junto daquele que mais amo nessa vida.
- Não volto sem convite. Muito menos de mãos vazias.
- Sou assim.
- Ela me fez assim.
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